24 de mai de 2011

Pintura e distorção...

Escolhi uma seqüência de três quadros que pintei recentemente, onde podemos ver como a distorção na figura humana foi sendo ampliada.
O mais interessante é que, durante o processo, não notei que estavam tão semelhantes, nem os fiz como uma série, em teoria seriam três quadro diferentes. Apenas quando acabei a terceira que olhei para elas juntas e, estupefato, notei que retratavam praticamente a mesma figura, embora de formas bem diferentes!

Aqui, na primeira pintura, o tema é tratado de forma quase naturalista: a única distorção é na boca / queixo do sujeito. Seria mais uma caricatura que um rosto deformado, especialmente fruto do nariz enorme e do pescoço. O fundo é facilmente reconhecido, uma montanha, a lua... Apenas os dois planos atrás da figura sugerem algo de diferente e estranho, planos ambíguos e curiososo.

 Aqui, em compensação, já temos uma disorção maior: o nariz se mistura com a boca, não se sabe bem o que é pescoço, o que é queixo, e o rosto se transformou numa seqüência de dobras e volumes. Porém, ao contrário da cabeça, o braço e as mãos são bem naturais. Sai a roupa do anterior, aparece o corpo. O fundo é bem mais estilizado, e propositalmente é indecifrável. Seria um toldo? Um muro? Uma armação? Fica a cargo do observador...

  Finalmente, aqui temos uma distorção maior. O rosto já não é facilmente identificável, e a arcada dentária parece vir de direção contrária. O nariz é uma forma ambígua com os lábios, e avança dentro da boca. Enfim, aqui a distorção atingiu a forma humana de forma que ela é reconhecível embora não realista. O corpo acompanha este tratamento, por um lado parecendo "descascado", sem pele, e por outro com volumes vagamente familiares porém irreconhecíveis. E o fundo? Sumiu. Achei desnecessário.

Engraçado como às vezes vamos criando sem perceber, até que paramos e olhamos tudo junto. E daí vem a surpresa, uma nova percepção do conjunto.
É uma situação muito estranha, mas também muito agradável, pois o artista, até então criador das obras, subitamente consegue vê-las como se fosse a primeira vez, como público.

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